Recordações


Pe. Romano Bevilacqua

A Unção de Nicola
Numa manhã, logo depois de ter aberto a igreja, chegou um filho do quase centenário Nicola Demarchi, pedindo a presença do padre para o pai que estava passando mal. De charrete fomos até a casa onde moravam nas colônias.
Encontrei o Nicola de cama e me acolheu com muita alegria, dizendo que desde criança, todos os dias fazia uma oração que a mãe lhe tinha ensinado: “Pai, três coisas vos peço; a graça de antes de morrer receber os Sacramentos da confissão, da Comunhão e da Extrema Unção”; por isso mandei meu filho para chamá-lo.
Naquele tempo o sacramento da Unção dos Enfermos chamava-se Extrema Unção; só a palavra “extrema” assustava as pessoas pensando que se tratava do passaporte para a outra vida.
Nicola, que tinha chegado ao Brasil quando ainda era jovem, trouxe os ensinos religiosos e sempre foi um fiel praticante. Ele tinha um defeito numa das pernas que não o impedia de andar. Quando criança a roda duma carroça lhe passou por cima quebrando a tíbia e naquele tempo o único remédio era amarrar duas talas de madeira e enfaixar; o resultado foi o osso mal grudado e com o defeito físico. Recebeu os três Sacramentos com muita devoção e em seguida me convidou para tornar um café na cozinha. A surpresa foi que até Nicola levantou da cama e veio se sentar à mesa e, como de costume, tomou seu café numa tigela acrescentando um copo de vinho; e novamente bom, viveu mais uns anos superando, na hora da morte, os cem anos.
Embora mancando não perdia a Missa aos Domingos de manhã, mas chegava em casa só à tardezinha, pois sempre parava para tomar a bênçãos nos bares que encontrava no caminho de volta. Diariamente rezava seu terço, caminhando no meio do seu parreiral.