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Proposta Fundamental: Conversão Pessoal e Pastoral

PROPOSTA FUNDAMENTAL: CONVERSÃO PESSOAL E PASTORAL

O Papa Francisco e a Evangelii Gaudium

(Palestra aos Diáconos permanentes da Diocese de Santo André ministrada por Dom Pedro Carlos Cipollini – Bispo Diocesano de Santo André em 5 de setembro de 2015 durante o Retiro dos diáconos)

Introdução

O papa Francisco tem surpreendido a Igreja e comovido os corações. Qual é a tônica

central de sua mensagem? Poderíamos nos deter em vários tópicos, mas a mim parece-me que ele recorda constantemente à Igreja o mistério da encarnação. A “kénose”, ou seja, o rebaixamento de Deus que se fez homem.

A encarnação é um dos mistério centrais de nossa fé e quem nega que Jesus é Deus encarnado, faz desmoronar todo o edifício da fé: “Este é o critério para saber se uma inspiração vem de Deus: de Deus é todo espírito que professa Jesus Cristo que veio na carne” (1Jo 4,2; cf.tb. 1Jo 2, 22-23). Mas o papa Francisco demonstra esta realidade à Igreja mais do que com palavras, com gestos concretos. Ele chama a Igreja e cada um de nós para uma verdadeira conversão. Através de uma pedagogia toda especial, vai nos mostrando que a Igreja precisa converter-se para ser a Igreja do Verbo Encarnado: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1), a Igreja da kénose, do rebaixamento, da humildade!

A partir da fé na encarnação, ele faz um chama o à conversão pessoal e estrutural. Como se fará isto? Com a graça de Deus certamente, mas não se pode excluir nosso esforço pessoal e empenho diário para viver esta dimensão fundamental da nossa fé e de nosso processo de santificação. “Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é um homicida. Nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele. Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3,14-16).”Quem diz que permanece em Deus deve caminhar como Jesus caminhou” (1Jo 2,6).

  1. Uma Igreja mais preocupada com a missão do que com a autopreservação

Muitas vezes o papa Francisco expressou seu desejo de que a Igreja faça uma escolha missionária capaz de transformar cada âmbito de sua realidade, para que os costumes, o estilo, os horários, a linguagem e cada estrutura eclesial se torne um canal adequado para a evangelização do mundo atual. Que a Igreja se preocupe mais com a missão que com sua autopreservação. E a missão tem como objetivo levar uma mensagem e qual é a mensagem? É Jesus revelador do amor-serviço que salva. Ele é o Caminho, a Verdade, a Vida: “E nisto consiste o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida” (1Jo 5,11-12).

  1. Conversão Pastoral

A reforma das estruturas, que exige a “conversão pastoral”, se pode entender somente neste sentido: fazer de modo que toda a Igreja a partir da fé na Encarnação, na “Kénosis”, se torne mais missionária, que a pastoral ordinária em todas as suas dimensões seja mais expansiva e aberta, que coloque os agentes de pastoral em constante atitude de escuta e “saída”, favorecendo assim a resposta positiva de todos aqueles aos quais Jesus oferece sua amizade.

O papa recorda que a Igreja não deve se tornar nunca uma alfândega, mas uma casa paterna onde tem lugar para cada um que percorre com fadiga os caminhos da vida. Uma Igreja hospital de campanha…que corre o risco de se ferir na missão, mas que evita de adoecer por ficar estagnada…

Enfim, o papa Francisco na Evangelii Gaudium propõe uma “revolução”. Isto não quer dizer que proponha mudanças repentinas e radicais nas instituições, mas é uma renovação profunda da dimensão mística da fé, da escuta do Espírito Santo, renovação da vida de oração, do discernimento com base no Evangelho. O papa propõe à Igreja viver a missão com base no Evangelho, sob a conduta do Espírito Santo, o que certamente dará à Igreja mais liberdade e alegria.

Parte-se da alegria de experimentar o amor de Deus, seu perdão e sua ternura. Porque quem não vive não tem força para evangelizar: a boca fala do que o coração está cheio… A partir daí somos convidados a sair e ir ao encontro, para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo com o qual nos encontramos (cf. EG 49).

O papa propõe uma espiritualidade da Encarnação, atenta à realidade, que possa animar o empenho do cristão pela transformação do mundo, para que ele seja mais humano e mais “divinizado”, ou seja, para que Deus Reine nos corações e na sociedade humana.

Enfim, a Evangelii Gaudium é para a Igreja um “livro do desassossego” que propõe uma mística que parte da fé na Encarnação do Filho de Deus, Jesus, que nos revela o amor total do Pai por nós.

  1. Conversão pessoal

Mas como se realizarão estas propostas do papa Francisco? Como se fará isto?

Creio que há uma exigência muito grande de conversão pessoal para se chegar a uma conversão pastoral, que todos sentem: precisamos urgentemente. É preciso homens novos para uma proposta nova. Proposta nova, mas que é a proposta original vivida pelos primeiros cristãos em uma Igreja toda ela missionária (cf. Atos dos Apóstolos).

Penso que o papa Francisco propõe um novo estilo de comportamento que é a vida na humildade. Humildade para a qual chama a Igreja para converter-se, a partir de um dado muito forte de fé no mistério da Encarnação como já assinalei aqui. Se queremos uma Igreja como o papa Francisco propõe, é necessário que seja colocada a pedra fundamental que é a humildade que deriva da “kénosis” do Filho de Deus.

O que se entende por humildade em um mundo voltado para o sucesso a qualquer custo, para a busca do poder e para a auto referência pessoal em tudo (narcisismo). O homem não só faz as leis, mas ele se tornou a lei suprema. O que significa humildade diante da proposta do “superhomem” de Nietsche , para o qual a suprema fraqueza é o amor-serviço-perdão…A humildade seria sinal inequívoco de falência de uma pessoa na sociedade hodierna movida a competição. Para o mundo pagão, a humildade era desconhecida como virtude, ela era vista como atitude vil, ignóbil e servil, atitude de escravos…

  1. Mas o que é humildade para o cristão?

O cristianismo, a partir da “kénose”, do rebaixamento de Deus realizado na encarnação, vai ver a humildade como atitude fundamental na vida cristã de seguimento de Jesus Cristo. Para uma das maiores santas da Igreja, Santa Teresa de Jesus ou de Ávila, declarada doutora da Igreja, a humildade se refere à verdade. Andar na humildade é andar na verdade. É saber considerar a nossa verdade e a Verdade de Deus. Deus é a suma verdade e a humildade é andar na verdade (cf. Moradas 6, 10,7). Humildade é dar a Deus o que é dele: tudo de bom! E a nós o que é nosso: a miséria do pecador, pois nada de bom procede de nós. Assim somos chamados a reconhecer os dons que recebemos de Deus e aceitar nossa pobreza congênita. Para Santa Teresa, caminhar pelo vale da humildade é caminhar no caminho real e seguro. Ir pelas montanhas do orgulho e da vaidade, é estar sujeito às ventanias que destroem.

Assim podemos concluir que a humildade tem um duplo fundamento: a verdade e a justiça. A verdade que nos faz conhecer o que realmente somos: frágeis e pecadores. A justiça que nos inclina a tratar-nos como realmente somos. O apóstolo Pedro recomenda: “Revesti-vos todos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. Humilhai-vos, pois, sob a poderosa mão de Deus, para que, na hora oportuna ele vos exalte. Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, pois ele é quem cuida de vós” (1Pd 5,5-7).

Seria muito interessante considerar a vida de Jesus sobre o prisma da humildade, da manjedoura em Belém até a cruz no Calvário, mas principalmente seus trinta anos de vida oculta em Nazaré…

Ouçamos o que diz um autor espiritual famoso do século xx: “O desespero é o desenvolvimento máximo de um orgulho tão grande e obstinado, que escolhe a desgraça total da danação, de preferência a aceitar a felicidade das mãos de Deus e, assim, reconhecer que Ele nos é superior que não somos capazes de realizar nosso destino sozinhos. Um homem, porém, que é realmente humilde, não pode desesperar, pois no humilde não há mais vestígio de autocomiseração” ….””É quase impossível superestimar o valor da verdadeira humildade e de seu poder na vida espiritual. Pois o primeiro passo na humildade é o primeiro passo no caminho da bem-aventurança, e a consumação da humildade é a perfeição e a plenitude da alegria. A humildade contém em si resposta a todos os grandes problemas da vida da alma”… Se não somos capazes de humildade, não teremos capacidade para a alegria, pois só a humildade consegue destruir o egocentrismo que torna a alegria impossível” (Thomas Merton in Novas sementes de Contemplação, Vozes, Petrópolis, 1963, pp 184-185).

Voltemos ao papa Francisco e à premissa que coloquei afirmando que sua proposta para a Igreja é a proposta de uma Igreja que, a exemplo do Filho de Deus, se encarne, se torna “kenótica”, uma Igreja que serve, que se compadece com os pobres e sofredores, uma Igreja em saída, uma Igreja que não seja autoreferencial….e consequentemente uma Igreja que tenha ministros realmente convertidos a este espírito de humildade que permeou toda a vida de Jesus.

Conclusão

Em um livro agora traduzido para o português o autor norte americano Jeffrey A. Krames, aborda a questão da liderança exercida pelo papa Francisco. O título do livro é a propósito: Lidere com humildade – 12 lições do papa Francisco, Ed. Planeta, S. Paulo 2015. Reproduzo a seguir o que ele escreve:

“Ele (papa Francisco) acredita que a autêntica humildade capacita os líderes como nenhuma outra qualidade de liderança. ´Se conseguirmos desenvolver uma atitude verdadeiramente humilde, poderemos mudar o mundo´, escreveu Bergoglio antes de se tornar papa (cf. J. Bergoglio/A. Skorka in Sobre o céu e a terra…). E ele não perde nenhuma oportunidade de mostrar que uma pessoa nunca pode ser humilde demais, e que todos de fato podem aprender a ser mais humildes. Com isso, ele alterou os padrões pelos quais avaliamos os nossos líderes” ( p. 34).

Nesta perspectiva o autor descreve o papa como alguém que percebeu que na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório, sendo que o real cede lugar às aparências. O papa Francisco valoriza o conteúdo em detrimento do estilo. Nesta mesma linha de atitude humilde como fundamento da missão a ser desenvolvida, o papa Francisco deixou claro em sua primeira homilia dia 19 de março de 2013, que: “o poder autêntico é o serviço aos outros e que também o papa, quando exerce o poder, deve entrar cada vez mais plenamente neste serviço…ele deve ser inspirado pelo serviço humilde, concreto e fiel que caracterizou São José…” (Papa Francisco in Homilia de Posse…)

O papa Francisco afirma que: “Os cristãos são convocados a realizar a grande obra de evangelizar até os confins do mundo em um espírito de humildade e não em uma atitude de conquista” (Evangelli Gaudium). E aos ministros da Igreja ele afirma: “ Estas são as duas virtudes de um governante, assim como nos indica a Palavra de Deus: amor ao povo e humildade” ( 16 setembro 2013 na meditação matutina na Casa Santa Marta). O papa convida a Igreja a uma “conversão missionária que coloque a Igreja – cada um de nós – em estado permanente de missão” (cf. EG 25). Escreve até sobre a “conversão do papado” (EG 32).

 

Fonte: Diocese de Santo André

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