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Maria, modelo de Oração

Tarde de espiritualidade para os seminaristas da Diocese de Santo André

27 de março – Terça-feira Santa 2018

Dom Pedro Carlos Cipollini

Introdução

Nos Evangelhos temos três retratos de Maria que devemos trazer bem fixos na mente: O primeiro retrato nos mostra que Maria era toda de Deus. Ela ouvia e meditava a Palavra de Deus, procurando praticá-la. Para Maria Deus falava não só pela Bíblia, mas também pelos fatos da vida. Ao ouvir e observar a Palavra de Deus, Maria encontrava não só a sua felicidade e paz, mas também a causa de seu sofrimento. Nem sempre entendia o que Deus pedia dela. Ela ouvia, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,19)… Com razão o anjo lhe diz: “Não tenhas medo, Maria”( Lc 1,30).

Em segundo lugar vemos Maria que era toda do Povo. Atenciosa e preocupada com os outros. Visita Isabel para ajudá-la. Ajuda na festa de casamento em Caná (Jo 2,1). Não abandona os amigos no momento de perigo. Não abandonou Jesus na cruz (cf. Jo 19,25) e nem os Apóstolos no Cenáculo (cf. At 1,14).

Em terceiro lugar ela reza com os amigos. Ficou com os apóstolos rezando até o dia de Pentecostes. Graças à oração de Maria feita junto aos apóstolos, o Espírito Santo desceu em abundância para iniciar a missão da Igreja (cf. At 4,3,31). O segredo da força de Maria era a oração. O cântico de Maria, o Magnificat (cf. Lc 1,46-55), nos mostra muito bem que Maria conhecia os salmos e as Escrituras e orava continuamente. Foi assim que o Espírito Santo veio e fez nascer Jesus e depois a Igreja em Pentecostes. Maria possuía os dons do Espírito Santo que crescem com a oração. (C. Mesters, A mãe de Jesus, Vozes, Petrópolis, 1978, cap. II).

O sociólogo americano Andrew Greeley afirma que Maria representa o “símbolo cultural mais poderoso e popular dos últimos dois mil anos” do ocidente cristão”(cf. in I grandi misteri dela fede. Um catechismo essenziale, Queriniana, Brescia, 1978, 13).

Vamos refletir um pouco sobre Maria que é para nós modelo de oração.

  1. A oração de Jesus e a oração de Maria

a ) Oração de Jesus

A oração e Jesus é constante e profunda. Ela nos introduz na vida de intimidade de Jesus com Deus, a comunhão trinitária. Jesus causou impacto nos discípulos quando perceberam a alegria de Jesus e a intensidade de seu colóquio com o Pai (cf. Lc 11,1). Maria foi a primeira a perceber esta intensidade da oração de Jesus, toda voltada para o Pai. Jesus é o grande orante do Evangelho. Levantava de madrugada para rezar (cf. Mc 1,35), orava à tarde: tendo despedido a multidão, subiu ao monte a sós para rezar (após multiplicar os pães, cf. Mt 14,23). Rezava de noite e antes de tomar grandes decisões como a escolha dos doze apóstolos (cf. Mc 3,10; Lc 6,12).

Os momentos mais importantes e dramáticos da vida de Jesus são acompanhados de oração: no batismo no Jordão (cf. Lc 3,21); antes da transfiguração, reza pela fé de Pedro (cf. Lc 22,31-32), antes da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,41), reza na última Ceia (cf. Jn 17, 1-5), antes de sua paixão (cf. Lc 22,39), no momento de sua morte (Lc 23,34). Mais que seguir os horários prescritos para a oração no judaísmo, Jesus segue o ritmo do Reino de Deus e seus acontecimentos. Não é um tempo cronológico, mas um tempo salvífico.

Jesus reza não só com palavras ou atitudes corporais (ajoelhar-se, p. ex) mas Ele reza também com o silêncio e a contemplação. Mais que rezar em um lugar ou conforme formulas pré-fabricadas, a oração de Jesus está ligada a uma pessoa: o Pai, com o qual está em contínua comunhão. A última palavra do Jesus terreno é uma oração feita ao Pai: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”(Lc 23,46).

b ) Oração de Maria

A oração de Maria, assim como a de Jesus é uma oração marcada pela atitude constante de obediência ao Pai, porém através de Jesus, na sua acolhida, marcada também pela contemplação e seguimento. A originalidade da oração de Maria é a contemplação constante do mistério da Encarnação, de seu divino filho Jesus.

Deus nunca tinha revelado seu rosto, ninguém jamais o viu, mas Jesus é a imagem do Deus vivo (cf. Cl 1,15). A Maria se aplica por primeiro a bem-aventurança que diz: “Felizes os olhos que veem o que vocês estão vendo” (Lc 10,23). Maria começa a contemplar o rosto de Deus que se manifesta em um menino do qual ela tem de cuidar e ao mesmo tempo adorar.

Mas o que significa aqui contemplar? É um verbo composto (cum + Templum = estar no Templo) significa habitar em um espaço divino. Maria tem nos braços o criador do universo, por Ele foram feitas todas as coisas (Jo 1,3). A tradição oriental vai chamar Maria de Platytera (mais ampla que os céus), porque trouxe em seu seio e depois em seus braços aquele que criou o universo. Ao acolher Jesus ela acolhe aquele que é eterno e ilimitado.

A tradição oriental representa Maria orante com os braços levantados diante do trono de Jesus Cristo “Pantocrator”, aquele que tudo cria e governa. Em outras representações ela é figurada tendo no peito um medalhão com a figura do menino Jesus. Maria é a grande orante e intercessora do povo de Deus.

No evangelho de São João o conhecimento, a contemplação de Jesus, é a vida eterna (cf. Jo 17,3). Contemplação é pois, o conhecimento amoroso de Jesus. Esta foi a atitude constante de Maria para com seu filho Jesus. A convivência com Jesus não eliminou a necessidade da fé em Maria, talvez tenha aumentado mais ainda esta necessidade fazendo-a abandonar-se totalmente em Deus.

Maria contempla Jesus na fé. Ela é a primeira dos pequenos, aos quais Deus revela seus segredos ocultando-os aos sábios e entendidos (cf. Mt 11,25). Ela é bem aventurada porque acreditou cada dia em meio às provas e contrariedades da vida oculta de Nazaré. Maria contempla também na “escuridão da visão” ou “noite escura da fé”. Estar perto de Jesus não lhe dava o privilégio de saber o que iria acontecer com ele. Há como que um véu que oculta o mistério revelado. Entre Maria e Jesus está este véu que, ao mesmo tempo que revela, oculta o mistério. Maria vivia a intimidade do mistério de seu Filho não em um conhecimento luminoso, mas na fé. Ela realizou uma peregrinação na fé (cf. João Paulo II in RM 17). Enfim Maria viveu sua contemplação de Jesus na fadiga da fé que foi mais exigente para com ela.

Maria, ao mesmo tempo em que vivia na fé, devia oferecer-se constantemente para caminhar mais intensamente e profundamente em seu itinerário. Maria viveu a “obediência da fé” (Rm 16,26). Dela fala o Concílio Vaticano II: “Crendo e obedecendo ela gerou na terra o próprio filho do Pai…” (LG 63). “O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; o que a Virgem Eva ligou pela incredulidade, a Virgem Maria desligou pela fé” (Santo Irineu in Ad. Haer. III, 22,4, PG 7, 959A).

Assim sendo, Maria acompanha a vida de fé de todos os fiéis que desejam percorrer como ela percorreu o itinerário de fé em Jesus. Ela é a primeira na fé. Jesus é a ponte que permite o contato com Deus, Maria é a materna acompanhante que ajuda os fiéis neste itinerário de atravessar esta ponte. Por isso ela pode ser chamada de Mãe da Igreja (cf. Vaticano II – LG 53; Paulo VI Discurso em 1964, AAS 56 (1964) 1015). Por isso se pode dizer com certeza: não se pode ser cristão se não for “mariano”, pois Maria é o modelo de tudo aquilo que a Igreja e cada fiel de ser em relação a Jesus. “Assim, aquela que está presente no mistério de Cristo como mãe, torna-se – por vontade do Filho e por obra do Espírito Santo – presente no mistério da Igreja. “E na Igreja continua a ser uma presença materna, como indicam as palavras pronunciadas na cruz: Mulher, eis o teu filho; Eis tua mãe”. (João Paulo II in RM 24; idem 45).

Vejamos agora as duas vertentes da oração de Maria que o Papa João Paulo II nos aponta: a devocional (Rosário) e a sacramental (Eucaristia)

  1. O Rosário: caminho mariano para a contemplação de Jesus

O Rosário é o caminho mariano para a comunhão com Jesus. Oração que se julgava destinada aos simples e iletrados, revela-se no entanto uma oração com dignidade e elevado poder de contemplação evangélica de Jesus em companhia de Maria. O Rosário é uma oração evangélica centrada sobre o mistério da Encarnação redentora (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 44 e 46).

No Rosário temos várias modalidades de relacionarmos com o mistério de Cristo através de Maria. O Rosário é oração cristológica, porque, do começo ao fim, nos fala e nos conduz a Jesus. Recordamos Cristo em companhia de Maria, compreendemos Cristo desde Maria, entramos na “escola” de Maria, para compreender Jesus seu filho. Nesta oração procuramos conformar-nos a Cristo com Maria, ou seja ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Rom 13,14), suplicar a Cristo com Maria. No Rosário ainda, anunciamos a Cristo com Maria.

Estas cinco etapas percorridas com Maria, mediante a oração do Rosário, constitui um verdadeiro caminho de formação na autêntica oração cristã. Redescobrindo o Rosário, verdeio compêndio evangélico, se valoriza um caminho de progresso espiritual simples porém eficaz.

  1. Na escola de Maria, mulher eucarística

O Papa São João Paulo II propôs também um caminho mariano até Jesus: o caminho sacramental da oração eucarística. Assim como Igreja e Eucaristia formam um binômio inseparável, Maria e Eucaristia também. Maria encaminha a Igreja para a Eucaristia. Maria é chamada de Hadegetri, ou seja aquela que educa e acompanha os fiéis para a contemplação de seu Filho Eucarístico e para a comunhão com Ele.

Quatro são as atitudes eucarístico-marianas que a Igreja inteira está chamada a aprender, tendo a Maria como modelo e como ajuda materna eficaz.

a ) Atitude de fé: Há uma relação muito grande entre o sim de Maria ao receber Jesus em seu seio e o sim dos fiéis ao comungarem, recebendo Jesus eucarístico.

b ) Atitude de sacrifício: Maria viveu a dimensão sacrifical da eucaristia desde a apresentação de Jesus no templo até sua morte na cruz. O corpo oferecido em sacrifício é o mesmo corpo ao qual ela deu à luz o Filho de Deus.

c ) Atitude de acolhida: é uma terceira atitude eucarístico-mariana, do alto da cruz, Jesus nos deu Maria como mãe, e a atitude eucarística de acolher o sacrifício da cruz implica também na atitude de acolher Maria.

d ) Atitude do Magnificat: canto de louvor e ação de graças. Quando Maria exclama: “minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”, leva Jesus em seu seio. Louva o Pai por Jesus, em Jesus e com Jesus. Esta é precisamente a verdadeira atitude eucarística. No cântico de Maria se revela também a índole escatológica da História que é também da Eucaristia: Deus fará nova todas as coisas. A Eucaristia nos foi dada para que nossa vida seja como a de Maria, toda ela um Magnificat.

Conclusão

Na pedagogia da oração a pessoa de fé encontra em Maria um modelo exemplar. Ela nos ensina que a oração é encontro com Jesus, é acolhida de Jesus em nossa vida, é deixar que Ele nos leve ao Pai. Não podemos render graças a Deus sem associar-nos a Maria porque com ela começou a economia da salvação (cf. P. Farhat in Oriens christianus 3 (1913) 19-21. Somos chamados pela Igreja não somente a rezar a Maria pedindo sua intercessão mas muito mais a rezar com Maria.

“Cada comunidade formativa, dedicará um momento à devoção comunitária a Nossa senhora nos meses de maio e outubro, a ela confiando-se filialmente como Mãe educadora, meditando sua vida e aprendendo dela a total dedicação à própria vocação como serviço a Deus e à humanidade. Serão valorizadas e incentivadas as devoções populares…, a reza frequente do Terço e outras formas de devoção Mariana” (Diocese de Santo André – Formação Presbiteral – Diretório Diocesano (2017) n. 94).

Cristo é o único caminho para o Pai (cf. Jo 14,4-11), porém a Igreja reconhece que a piedade e devoção à Virgem Maria, subordinada e em conexão com a piedade ao Divino Salvador, tem grande eficácia e força renovadora da comunidade cristã no seguimento de Jesus Cristo. Portanto, aprendamos a orar com Maria, porque ela é a Virgem que se dedicou sobremaneira à pratica da oração (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 18).

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Fonte: Diocese de Santo André

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