O mundo vive em contínuas mudanças, transformações, crises, medos, angústias. As inseguranças e as incertezas fazem parte do nosso cotidiano. Em todos os setores da vida humana e da sociedade, muitas são as ameaças contra a vida, a vida digna, o equilíbrio, a serenidade. É só olhar ao nosso redor e vemos um mundo repleto de injustiças, mentiras, falsas respostas aos problemas mais angustiantes da sociedade.
Porém, sejamos honestos, podemos constatar como existem também muitos esforços por parte de muita gente para que aconteça um mundo mais humano, onde a justiça e a paz finalmente possam se tornar mais evidentes; gente que cultiva e trabalha para realizar a grande utopia de um mundo e um futuro bem melhores. É minha plena convicção, que, até que o ser humano não descubra a sua verdadeira identidade de filho de Deus e de irmão dos demais, e de que sua missão, à luz da Palavra de Deus, é a de trabalhar para a construção do Reino de Deus, estaremos sempre tampando buracos, apagando fogos que sempre reaparecem, mas nunca resolveremos na sua raiz, os problemas que mais nos angustiam.
Enganam-se todos aqueles que pensam que chegou a ora de se desfazer de todos os sinais religiosos dos nossos ambientes públicos porque somos um país laico. Quanto mais excluímos Deus, ou algo que nos lembre a presença dEle, das nossas escolas, ambientes de trabalho ou repartições públicas, tanto mais corremos o risco de ficarmos entregues nas mãos de quantos não acreditam em Deus nem tampouco nos seus semelhantes. Todos nós somos convidados a acolher com serenidade, mas também com seriedade o convite que o Senhor sempre nos faz: conversão, vida nova, amar o próximo, servir amando, amar servindo... era isto que o Senhor queria nos dizer quando lavou os pés dos Apóstolos... e isto poderia e deveria acontecer também com aqueles que trabalham ao nosso lado, porque eles também são nossos irmãos.
Certamente todos temos as nossas dificuldades, os nossos problemas, e então, porque tornar, no ambiente de trabalho, o fardo dos nossos irmãos mais pesado, com comportamentos e atitudes de hostilidade ou pouco fraternas?
Especificamente, hoje estamos celebrando a festa de São José Operário, que a Igreja proclamou padroeiro dos trabalhadores e do mundo do trabalho, por ser um Homem justo, que soube dar condições de vida digna com seu trabalho ao filho de Deus e a mãe Maria SS.ma, que o próprio Deus lhe tinha confiado.
E para celebrar este dia a comunidade de São Bernardo, já como hábito, costuma realizar esta solene celebração eucarística aqui em nossa Matriz que não pode ter outro sentido a não ser, invocar as bênçãos de Deus sobre todos os trabalhadores e sobre o mundo do trabalho, e nos tornar presente Jesus Cristo, pois só Ele pode nos ajudar a encontrar as respostas verdadeiras para aquilo que todos nos almejamos.
Este ato tão sagrado, a celebração da eucaristia, nos proporciona um verdadeiro encontro com Jesus Cristo no seu mistério pascal, morte e ressurreição, para a nossa salvação. Salvação para todos os homens e para o homem todo, em tudo aquilo que somos e em tudo aquilo que fazemos. É Jesus Cristo que precisa ser colocado ao centro de nossa vida. É Nele que devemos nos inspirar se quisermos encontrar as verdadeiras soluções aos múltiplos problemas da nossa história, individual e comunitária.
Celebrando e renovando o mistério do amor de Deus, não podemos reduzí-lo a um simples ato social, nem tampouco a uma manifestação de reivindicação de alguns direitos, mas sim uma oportunidade especial quando nos comprometemos de levar para o nosso ambiente de trabalho os verdadeiros valores que o Senhor nos convida a reavivar nesta celebração, como um testemunho de fé autêntica e de fraternidade cristã coerente.
Infelizmente, na maioria das vezes, nós manifestamos a nossa identidade cristã nos poucos momentos que ficamos dentro da igreja; uma vez fora da igreja, nós assumimos comportamentos que não têm nada a ver com o nosso compromisso batismal e nos tornamos motivo de escândalo para muitos que encontram dúvidas e dificuldade nos seus caminhos de fé.
A celebração eucarística do dia 1° de maio, bem no coração do tempo de páscoa, é, e deveria ser o momento privilegiado, quando todos nós renovamos o nosso compromisso de tornar presente Jesus Cristo ressuscitado nos nossos ambientes de trabalho, independentemente do cargo e da posição que ocupamos.
O dia em que nós tivermos coragem de sermos cristãos coerentes aonde quer que estejamos, o nosso mundo vai se tornar mais vivível, e tenhamos a certeza, que é no nosso lugar de trabalho, aonde passamos uma boa parte do nosso tempo, que encontramos os maiores desafios, mas também as melhores oportunidades.
É urgente uma tomada de posição séria de nossa parte: não podemos pensar sempre egoisticamente nos nossos interesses particulares, mas como verdadeira comunidade cristã, procurar aquilo que é bom para todos, na caridade, eliminando todo egoísmo, ganância e competição.
As novas gerações estão de olho nos nossos comportamentos e um dia serão eles a nos julgar e nos condenar se não soubermos passar para eles um mundo melhor. Peçamos com muita fé e com confiança a Deus pela intercessão de São José para que a justiça e a caridade sejam uma realidade no mundo do trabalho. Que o trabalho humano seja meio de santificação para as pessoas e os nossos ambientes de trabalho sejam lugares de respeito para com a pessoa humana, de promoção dos verdadeiros valores da vida.
Para o dia do trabalhador os nossos Bispos reunidos em assembléia em Itaici nos enviaram sua mensagem de otimismo e de esperança. Estes são alguns tópicos:
“Neste ano, o dia 1° de maio acontece no contexto da crise que assola o conjunto da economia mundial. A crise mostra a sua face mais cruel ao se deslocar do capital financeiro para o setor produtivo, dizimando milhares de postos de trabalho, na cidade e no campo”. A mensagem dos Bispos lembra que este tempo de crise representa “oportunidades para as mudanças necessárias em direção a uma nova ordem econômica”. Diz ainda que, “nesse contexto, a Igreja faz ressoar o clamor dos trabalhadores por vida e dignidade”.
A CNBB confirma seu compromisso em favor dos direitos sociais do povo e, em especial, dos direitos trabalhistas e dos esforços para consolidar as suas organizações”, diz o texto. “A CNBB convida trabalhadoras e trabalhadores a manterem viva a fé, a esperança e a alegria em Jesus Cristo Ressuscitado. Que Nossa Senhora Aparecida e São José Operário, o Carpinteiro de Nazaré, intercedam junto a Deus, a fim de que as mais copiosas bênçãos seja derramadas sobre todos os que, irmanados pelos laços do trabalho, constroem o nosso Pais”.