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Homilia – Celebração Ecumênica – 500 anos da Reforma

Celebração Conjunta Luterano-Católica dos 500 anos da Reforma
8 de outubro de 2017 – Igreja da Ressurreição (Paróquia Luterana do ABCD) Santo André-SP
Evangelho de João 15, 1-6

Irmãos e irmãs, saúdo a todos e cada um que aqui se encontra para louvar e bendizer o Senhor, e também se alegrar; porque alegria do Senhor é a nossa força (cf Ne 8,10). A experiência mostra-nos que, pessoas que vivem em condições muito pobres, podem viver alegres, quando vivem na caminhada da esperança. Nós vivemos em condições pobres a nossa união, mas como vivemos de esperança na sua realização, podemos viver alegres. Por isso, para mim, é uma honra estar aqui e compartilhar esta alegria. Agradeço o convite do Pastor Alberi e, em sua pessoa, abraço fraternalmente a todos.

O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, adverte que ele é inábil na arte de falar, não é um bom orador (cf. 2Cor 11,6), não tem a eloquência de Apolo (1Cor3,4). Junto-me a Paulo, pois também eu não tenho arte no falar, mas com a graça e pela misericórdia de Deus, assim como Paulo, sou apóstolo.

Nossa celebração faz-nos refletir sobre os caminhos de Deus na História e o mistério que envolve seus desígnios. Comemorar os 500 anos da Reforma luterana é sobretudo recordar a nós mesmos que somos galho de um mesmo tronco, e que a unidade é a meta não só o desejo de Jesus: Que todos sejam um ó Pai (Jo 17,11). Assim, como escreveu D. Bonhoeffer, somos obrigados a lutar, para que os pensamentos pequenos que nos aborrecem, sejam vencidos pelos pensamentos grandes que nos fortalecem (Resistência e submissão, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968, p. 159).

Para que aconteça a unidade é preciso permanecer em Cristo porque: Ele é nossa paz (Ef 2,14). Às vésperas de sua morte, Jesus revela seu desejo mais profundo: Permanecei em mim (Jo 15,4). Se não estiverem vitalmente unidos a Jesus, os discípulos não subsistirão, não existirá Povo de Deus da Nova Aliança. Permanecer em Jesus é guardar sua Palavra. No Evangelho se encerra a força mais poderosa que as comunidades cristãs possuem para regenerar a vida.

A forma como se vive a fé, em unidade com Jesus, unidos a Ele, é que mantem acesa a chama do Evangelho. Conhecer Jesus, conhecer interiormente sua pessoa, ter paixão pelo seu projeto é nossa vocação cristã. Permanecer em Cristo também quer dizer praticar a Palavra não somente saber. A vida dos cristãos se transformaria radicalmente, se o Evangelho fosse nosso tesouro essencial. Sem estarmos ligados ao tronco que é Cristo, não teremos o amor; cairemos numa fé que vive do ateismo prático. Permanecer, verbo tantas vezes repetido, é um apelo central na mensagem de Jesus aqui expressa.
A insistência no verbo permanecer quer expressar uma intimidade profunda e extraordinária. Permanecei em mim e eu em vós: Ego vobis mihi. Eu em vós e vós em mim, é uma expressão de aliança eterna e imorredoura. A fecundidade é fruto da união. Estarmos unidos a Cristo e entre nós é condição para a fecundidade da missão evangelizadora. Sabemos que não podemos estar unidos a Cristo, se não estivermos unidos aos irmãos pelo vínculo do amor, pois a fé age pelo amor – charitas (cf. GI 5,6), este amor que é vinculo da perfeição (Cl 3,14) porque nos une a Cristo e aos irmãos.

Nesta celebração queremos pedir o dom do Espírito Santo, pois Ele é que nos faz passar do amor a nós mesmos ao amor de Deus. Toda virtude consiste na verdade da caridade e na caridade da verdade: Deus é luz (110 1,5) e Deus é amor (1.10 4,8.16). Assim o Espírito Santo de Deus é Espírito de verdade e Espírito de amor. Luz e Amor, Verdade na Caridade é o roteiro para nossa caminhada ecumênica, que só é possível se for guiada pelo mesmo Espírito que guiou Jesus. Mesmo que seja difícil este caminho e até mesmo doloroso. A fé em Jesus é também a fé no caminho de Jesus. O caminho de Jesus é a cruz. A opção pela cruz não é opção pelo sofrimento, mas pela luta sem armas, é passar do amor próprio para o amor de Deus, vencendo todos os obstáculos somente com o bem.

Quem fez reviver na cristandade ocidental o grande tema agostiniano do Espírito Santo, que faz o homem passar do amor próprio para o amor a Deus e ao próximo foi Martinho Lutero (cf. Raniero Cantalamessa, O Canto do Espírito, Vozes Petrópolis, 1998 3ª. ed p. 276). Ele legou-nos uma tradução do Veni Creator (mais tarde, musicado por J. S. Bach – cf. Komm, Gott Schopfer, Heiliger Geist – BWV 631). Inspirando-se no hino ao Espirito Santo, ele reúne os dois temas do Espírito Santo como luz e amor; Ei-lo:

Vem, Espirito Santo, Deus, Senhor
enche com o tua graça benigna
a alma e a mente dos teus fiéis.
Acende neles o fogo do teu amor.
Com o esplendor da eterna luz”
(Lutero, Komm, Heiliger Geist, Herre Gott – WA 35, p. 1655,448-449)

Permitam-me recordar as palavras do Papa Francisco na catedral luterana de Lund na Suécia no início da celebração dos 500 anos da Reforma: Jesus diz-nos que o dono da vinha é o Pai, que cuida dela e a poda para dar mais fruto (cf. Jo 15,2). O Pai preocupa-se, sem cessar, com a nossa relação com Jesus, vendo se verdadeiramente estamos unidos a ele. Fixa-nos, e seu olhar de amor anima-nos a purificar o nosso passado e trabalhar no presente para realizar aquele futuro de unidade porque tanto anseia.

Nesta data, os 500 anos da Reforma, iniciada em 31 de outubro de 1517, é necessário recordar que: Deus não cumpre todos os nossos desejos, mas Ele cumpre todas as suas promessas (D. Bonhoeffer, Resistência e Submissão, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968, p. 188). E Jesus prometeu-nos que haverá um só rebanho e um só pastor(Jo 10,16), é o que esperamos.

AMÉM!

+ Dom Pedro Carlos Cipollini

Bispo Diocesano de Santo André

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Fonte: Diocese de Santo André

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