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Fraternidade e tráfico humano

Fraternidade e tráfico humano

Campanha da Fraternidade 2014, um tema sempre atual.

Breve síntese do Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2014, por Pe. João Garbossa

Tema: Fraternidade e tráfico humano. Lema: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl,5,1). Tráfico para trabalho escravo; para a exploração sexual; para a extração de órgãos e trafico de crianças.

O tema da CF de 2014 é um tema para uma intensa evangelização que a igreja nos propõe para ser estudado, meditado, refletido, rezado , tema que nos compromete frente aos dados da realidade de irmãs e irmãos que sofrem com a violação da dignidade e da liberdade de filhos e filhas de Deus. Violação que se dá quando se faz das pessoas e de seus corpos, objetos de mercado para o lucro econômico, para o prazer sexual, para realização do desejo da maternidade e paternidade e para prorrogar a sobrevivência à custa dos órgãos dos corpos dos outros.

A realização desta Campanha da Fraternidade na quaresma tem tudo a ver com o sentido da preparação e da celebração da Páscoa. O chamado de Jesus para segui-lo até o dom da vida é o de assumirmos o compromisso de não oprimir, explorar, seduzir e usar o irmão e irmã, e de nos comprometermos ao mesmo tempo com a causa na luta contra as injustiças causadas pelos exploradores da carne humana. Este é o verdadeiro discipulado que conduz à ressurreição com Cristo. Pessoa traficada é pessoa enganada, sem liberdade, no isolamento, presa a uma dívida insolúvel, privada dos documentos, usada, ameaçada, com risco de morte. O explorador é o maior escravo dos ídolos do dinheiro, do prazer, e da dominação.

Ojetivo da CF: Identificar as práticas do tráfico humano em suas várias formas e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humanas, mobilizando cristãos e pessoas de boa vontade para erradicar este mal com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus.    

Organização das Nações Unidas calcula que o tráfico humano no mundo renda 32 bilhões de dólares ao ano; destes 85% provêm da exploração sexual. E calcula que os traficados na América latina sejam um milhão e oitocentos mil. 74% de todos os traficados são adultos e 26% são crianças; 55% são homens e 45% mulheres. A renda só perde do tráfico de drogas que está em primeiro lugar e do tráfico de armas. A rota internacional do tráfico de pessoas segue especialmente para: USA, Canadá, Espanha, Holanda, Alemanha, Itália, África do Sul e China. Existe também uma rota interna que se alimenta especialmente no Nordeste, nas fronteiras do sul e sudoeste do Brasil-, à beira das grandes rodovias e dirigem-se para o Norte, onde há grande concentração de operários para a construção de barragens e para o Suriname.

Existe uma rede internacional de tráfico humano, na qual agem os “gatos” ou “coiotes” como intermediários ou agenciadores dos migrantes, para servir uma rede internacional de empregadores escravagistas. Existe também uma rede interna. Agem de forma silenciosa, articulada, arquitetada que as pessoas até mais próximas não são capazes de perceber. Visto que o Estado não dá condições para uma vida digna e com perspectiva de futuro no local, aproveitam-se da pobreza e da miséria do povo fazendo propostas tentadoras e enganadoras. Dizem que estão querendo ajudar as pessoas. Por vezes a situação é tão desesperadora na comunidade de origem, que as pessoas se sentem até agradecidas com um trabalho escrevo, mas que pelo menos pode ajudá-las em alguma coisa com esperança de um futuro melhor como é o caso de muitas oficinas de costura para bolivianos em SP. onde os operários são explorados pelos próprios compatriotas, onde se mora, onde se trabalha até 16 horas por dia. Calcula-se que 40% dos imigrantes indocumentados são presas fáceis dos agenciadores da migração e do tráfico. No lugar do destino, por serem clandestinos, sem documentação, eles têm dificuldade e medo de denunciar. Não podem recorrer e se defender. A ganância de um lucro rápido, por parte dos inescrupulosos, faz pagar ao homem, à mulher e à natureza pela exploração. A missão N. Sra. da Paz dos missionários de São Carlos (Scalabrinianos) acolhe anualmente imigrantes de mais de sessenta nacionalidades, especialmente de África e dos países da América do Sul e do Caribe. A finalidade é a de dar abrigo, alimentação, regularização de documentos e encaminhamento para um trabalho com carteira assinada. É uma maneira humana e cristã de proteger o imigrante dos exploradores. “Era migrante e me acolheste, (Mt. 25,35).

Tráfego para a exploração sexual = prostituição ou outras formas de exploração sexual: Os meios usados para aliciar e enganar as pessoas visadas, são: a pornografia, o turismo, a internet a abordagem pessoal. As propostas são de empregos como modelos, talentos de futebol, garçonetes, bailarinas, babás, enfermeiras e outros. Ao chegarem ao destino, os tornam prisioneiros (as) da prostituição, privados de seus documentos, impedidos de se comunicar com os familiares, usados por quem os frequenta até por encomenda prévia com especificação do tipo de pessoa. Vivem em cárcere privado. Dados apontam que 80% dos traficados nessa modalidade são mulheres, especialmente dos 14 aos 24 anos.

Tráfico para a extração de órgãos: Trata-se de um crime que vem crescendo nos últimos anos. O tráfico para a remoção de órgãos envolve a coleta e a venda de órgãos de doadores involuntários ou de doadores que são explorados a venderem seus órgãos em circunstâncias eticamente questionáveis. A internet é muito utilizada por esse “mercado”. Por vezes há situações de desespero de ambos os lados: de um lado de quem necessita do órgão e do outro de quem vende. No caso mais conhecido do ano 2000 entre Brasil e África do Sul, a estimativa é de que o esquema criminoso tenha movimentado em torno de US$ 4,5 milhões com a comercialização de cerca de 30 órgãos. A pessoa que vendia o órgão era levada de Recife para a África para a extração do órgão. Existe até uma tabela de preços para comércio de órgãos: coração 100 mil; rins 80 mil; pulmão 60 mil; fígado 30 mil reais.

Tráfico de crianças e adolescentes traficados para a exploração sexual e para a doação de órgãos: Somente na década de 80, quase 20 mil crianças brasileiras foram enviadas ao exterior para adoção. Foram encontrados inúmeros processos fraudulentos de adoção e a situação de muitas crianças permanece uma incógnita (Tb nº 18). O papa disse ser esse um dos maiores dramas sociais de nosso tempo. Crianças que desaparecem.

Propostas para o enfrentamento do tráfico humano (Tb nº255ss): Para denunciar, disque 100 à secretaria de direitos humanos da presidência da república das 8h00 às 22h00; disque 180 para a Central de atendimento da mulher (Tb nº259ss).

A escravidão na história do Brasil: Na colonização do Brasil índios foram desapropriados de suas terras e escravizados. Africanos foram comprados, ou capturados, trazidos para o Brasil e usados como força de trabalho escravo.

É para a liberdade que Cristo nos libertou (Tb nº 92ss): A ruptura das relações de comunhão com o outro, com Deus e com a criação leva ao pecado da violência, da exploração do outro e à morte, com violação da dignidade humana dos filhos e filhas de Deus. (Gn 3; Rm 5,12-21). O livro do Êxodo destaca a intervenção de Deus em favor de um povo oprimido e explorado com trabalho escravo no Egito. Para a libertação ele envolve o próprio povo oprimido, pedindo a ele confiança e perseverança. A libertação passa por sofrimentos e perseguições como o deserto e o exílio (Babilônia). Deus envia profetas para que o povo persevere na esperança, na fidelidade, preanunciando a fidelidade do Servo sofredor que vencerá pela cruz. A Páscoa é o ápice da liberdade. Ela é mantida na dor da fidelidade e do amor. Mais forte do que a morte.

A Lei preocupava-se a defender a dignidade do estrangeiro, lembrando que Israel também fora estrangeiro no Egito (Dt 24,19-22). O êxodo 21,16 ainda diz: “Quem sequestrar uma pessoa, quer a tenha vendido ou a tenha ainda em seu poder, será punido de morte”.

Jesus anuncia a libertação: “O Espírito do Senhor está sobre mim….para anunciar a libertação aos presos…para dar a liberdade aos oprimidos…” (Lc 4,18) Gestos de Jesus que libertaram (Tb nº 131): Expulsou os demônios (Mc 1,39), curou doentes (Mt 8,16),cegos, mudos, aleijados e leprosos (Lc 7,22). Jesus acolhia as crianças (Mt 19,13-15); (Lc 18,15-17); (Lc 9,48)

Textos referentes à liberdade: (Gl 5,1; 5,5; 5,13); Rm 5,12ss; 6,16; 6,22-23; 7,11); Hb 2,15); 2Cor 3,17); (1jo 3,14;4,11-12); (Jo 13,34; 15,12); (1Cor 7,23).

Jesus resgata a dignidade da mulher: Textos (Jo 4,27; 8,1-11); (Lc 7,36-50; 8,1-3; 13,11; 7,13); (Mc 5,25-34; 5,41); (Mt 28,9-10)

Tráfico humano é consequência de um sistema idolátrico, mormente da idolatria do dinheiro; de um sistema político e econômico apoiado na injustiça e desigualdade.

Segundo a doutrina social da Igreja, a fonte primordial da dignidade e igualdade entre todos os seres humanos, das diferentes raças, estratos sociais, grau de instrução, profissão é o fato de terem sido criados todos pelo mesmo Deus.(Tb nº 167)..

A dignidade do corpo e da sexualidade (nº 177): A cultura atual como cúmplice indireta do tráfico humano, faz da sociedade uma consumidora de pornografia desenfreada. O Beato João Paulo II denunciava “a difundida cultura hedonista e mercantil que promove a exploração sistemática da sexualidade. Vivemos, dizia ele, uma cultura que banaliza em grande parte a sexualidade” . E ainda afirmava; “O corpo humano, com o seu sexo, visto no mistério da criação, não é somente fonte de fecundidade, mas encerra desde o princípio a capacidade de exprimir o amor. A sexualidade é uma riqueza de toda a pessoa, corpo, sentimento e espírito” Ambos os sexos tem a mesma dignidade. Nenhum é superior ao outro. Cada um possui a totalidade e a dignidade do ser humano à sua maneira. A diferença vital da sexualidade está orientada para a comunhão (nº 180.) Dom Leonardo Ulrich Steiner afirma: “A sexualidade é um dos elementos mais íntimos da pessoa humana. É uma expressão grandiosa de cada pessoa. Nessa preciosidade, infelizmente, no imaginário, especialmente em relação à mulher está a prostituição”. Só o amor leva ao respeito à dignidade da pessoa humana.

As agressões à dignidade humana são agressões a Cristo (nº 182). O trafico humano é agressão à minha pessoa como membro da mesma humanidade.

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