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Entrevista de Dom Pedro Carlos Cipollini ao jornal Diário do Grande Abc

  1. Onde nasceu onde se formou?

Nasci na cidade paulista de Caconde segundo filho de Alzira e João Cipollini. Quatro irmãos, e duas irmãs. Fiz meus estudos primários na cidade natal. Cursei Filosofia, Pedagogia e Teologia na FAI e no Seminário Central do Ipiranga em São Paulo, depois tive oportunidade de fazer Doutorado em Teologia no exterior.

  1. Como o sacerdócio entrou na sua vida e que diferença fez no seu crescimento como ser humano?

Desde pequeno desejei ser padre, nunca quis ser outra coisa. Não tenho explicação para isto. Deus me chamou muito cedo e me deu a força para seguir em frente vencendo os obstáculos. Neste itinerário formativo e também no exercício do ministério, cresci muito, aprendi mais ainda. Estou certo que fiz a escolha correta, sinto-me realizado.

  1. O senhor sentiu a necessidade de fazer a diferença na vida de outras pessoas?

Eu sempre quis seguir Jesus Cristo, servir a Deus de qualquer maneira, mesmo sabendo de meus defeitos. Ajudar as pessoas a encontrar Deus e vê-las felizes por isso me deixa gratificado. O padre é o que tem vocação para servir o próximo e isto implica um compromisso exigente, um não se pertencer.

  1. Quando mudou para o Grande ABC e por qual razão? Como a região o acolheu?

Mudei-me para cá em julho de 2015 vindo de Amparo onde fui bispo por seis anos. Antes tinha sido padre em Campinas mais de duas décadas. Ali fui pároco e professor de Teologia na PUCCAMP. O motivo de minha vinda foi a transferência determinada pelo papa Francisco que me escolheu para suceder Dom Nelson. Fiquei muito surpreso, a tarefa é imensa. Pensei que outros poderiam fazer melhor que eu mas, me asseguraram que era eu que tinha que assumir esta missão. Meu receio desvaneceu quando percebi a acolhida calorosa que o povo do Grande ABC me dispensou.

  1. Quais as primeiras impressões sobre o Grande ABC e sobre o trabalho a ser desenvolvido nos sete municípios?

Minha impressão foi boa, um amor à primeira vista. A realidade é complexa, uma síntese de tudo o que é uma cidade grande em um processo de conurbação. O povo é bom, acolhedor e trabalhador. A sociedade é dinâmica, propositiva, com boa participação do povo na sua maioria carente, mas cheio de esperança. O trabalho pastoral aqui é grande, nossa diocese é uma das maiores do Brasil, abrange toda a população do Grande ABC. Já visitei a Diocese toda e constato que há muito o que fazer a cada dia pois, trabalho chama trabalho.

  1. Quais os tipos de sofrimento que o senhor observou por aqui? Ainda persistem?

Noto que as questões mais críticas, causadoras de sofrimento para o povo são: a precariedade na área da saúde, segurança e moradia. A violência sacrifica a população e a segurança publica é questão social e não somente policial. Um terço dos assassinatos aqui são de jovens… Penso que sem saneamento básico, por um lado, e um eficiente sistema de educação, pelo outro, não conseguiremos acabar com tanta pobreza, sofrimento e perda de vidas.

  1. Qual o papel da Igreja para reverter isso?

A missão da Igreja não é política, mas religiosa. Porém a fé tem incidência na vida: “Eu vim para que todos tenham vida e vida plenamente” (Jo 10,10), disse Jesus. A Igreja aqui no Grande ABC sempre esteve envolvida na promoção da pessoa, dos direitos humanos e deu muito apoio aos operários que se organizavam, em especial durante a ditadura militar. Penso que a missão da Igreja é continuar promovendo a solidariedade e ajudando o povo a ter esperança através do anúncio do Evangelho.

  1. Em 2016 pesquisa encomendada à USCS pela Diocese….

As mudanças na Igreja seguem as mudanças de toda a realidade do Grande ABC, que era caracterizada pela indústria e hoje é mais por serviços e o comércio. Mudou o contexto social, mudou a configuração eclesial. Há muita troca de fiéis entre as denominações religiosas. A Igreja Católica que era majoritária na Região, hoje conta com 46,8% de pessoas que se dizem católicas.

  1. A quais motivos o senhor atribui essa migração a outras religiões?

Primeiramente é preciso constatar que nossa região é feita de migrantes, acostumados a mudar de lugar, e isto leva também a mudanças, não só de religião, mas em todas as áreas da vida. Há busca por resultado imediato na religião, não se espera o “tempo de Deus”. Busca-se uma fé de resultados práticos e imediatos de um lado e decepção com algumas realidades da Igreja além da falta de formação e conhecimento do conteúdo da fé.

  1. O que tem sido feito pela Igreja para o retorno desses fiéis?

Na direção das propostas do Papa Francisco, nossa Diocese está se abrindo mais à acolhida e missão. Estas, aliás, são as propostas para o trabalho pastoral, são diretrizes escolhidas pelo Sínodo Diocesano que acabamos de realizar com a participação de toda a Diocese.

  1. Qual a importância do diálogo com outras religiões?

A importância está em formar para a fraternidade e união entre as diversas religiões que devem todas promover os valores básicos e imprescindíveis para a realização da pessoa e para a paz. Devemos promover o respeito entre as religiões, e isto só se faz com o diálogo.

  1. Como o senhor avalia a relação da Igreja com a política?

Respondo entendendo política não como política partidária, mas como política que é a busca do bem comum. Neste sentido a Igreja deve colaborar com todos os organismos que promovem a vida para todos. Temos procurado aproximação com as inúmeras entidades e as muitas pessoas de boa vontade que trabalham promovendo o bem. A Igreja por exemplo, através da Pastoral do Migrante, colabora com o poder público na acolhida de imigrantes em especial haitianos. A Pastoral da Criança colabora com o esforço da sociedade e do poder público para a promoção das criancas

  1. Faltam padres na região?

Sim, faltam. São muito procurados e não só por católicos. Cada padre aqui trabalha por dois. Estamos estimulando as vocações e tem aumentado o número de jovens que desejam ser padres. Temos 32 jovens no Seminário e isto nos anima. Rezem pelas vocações sacerdotais.

  1. O senhor se lembra quando teve o primeiro contato com o jornal Diário do Grande ABC?

Lembro sim. Foi em maio de 2015 assim que saiu minha nomeação. Eu e o Nilton Valentim trocamos e-mail. Ele mandou perguntas para eu responder em forma de entrevista.

  1. Lembra-se quando o Diário publicou a primeira matéria a seu respeito e por qual razão?

Se não me engano foi em 28 de maio de 2015 por ocasião de minha nomeação

Depois escrevi uma mensagem publicada no jornal em 1º de junho daquele ano intitulada “Abraço ao Grande ABC”, a pedido do Nilton Valentin.

  1. Em algum momento de sua carreira o Diário foi útil de alguma maneira?

Recordo-me que quando cheguei, fui visitar vários organismos da cidade e visitei também a redação do Diário. Fui muito bem recebido, na ocasião fizeram uma entrevista comigo, publicada em agosto de 2015. Isto me ajudou a ser conhecido logo que aqui cheguei e foi muito bom para meu trabalho.

  1. O senhor acredita que o Diário tem ajudado na formação da sociedade e a região?

Sim acho que tem ajudado bastante com seu compromisso com a promoção da educação, segurança pública, integração regional, cidadania e combate à corrupção, pelo menos é o que percebo lendo o jornal. Cito como exemplo a série de reportagens a Mata Atlântica, a Represa Billings e a luta para preservá-las, em uma série de ótimas reportagens se não me engano publicadas em setembro de 2017.

  1. Como o senhor avalia a importância do Diário tanto no desenvolvimento econômico quanto social da região?

Acho que o Diário contribui muito com o desenvolvimento econômico e social quando faz da educação uma de suas bandeiras. Sem a educação eficiente a sociedade ficará patinando. Nunca cansarei de repetir que sem um sistema educacional eficiente não diminuiremos a pobreza de forma duradoura. A falta de ensino para todos limita o avanço pessoal e o crescimento econômico, até o FMI já reconheceu isto. Sem educação não há senso crítico e sem ele, não avançamos como sociedade.

  1. O senhor acredita que o Diário do Grande ABC tem sido o porta voz da população do Grande ABC ou pode ser ainda mais? Como?

Creio que tem sido um dos veículos que dão voz ao povo focando em questões sérias e úteis à população, evitando cair em brigas de comadres e polêmicas inúteis. O jornal tem postura e tem foco. Deve manter este nível e dar sempre mais voz aos mais miseráveis porque é do modo como são tratados os pobres em uma sociedade que poderemos perceber para onde ela se encaminha.

  1. O senhor publica uma coluna quinzenal no Diário do Grande ABC. Qual tem sido a repercussão desse trabalho?

Não tenho como avaliar, porém encontro muitas pessoas que dizem serem leitores desta coluna. Dias atrás encontrei um grupo de senhoras que disseram lerem a coluna juntas, quando se reúnem em um grupo de reflexão do qual participam a tempos.

  1. Na sua opinião o que mais o Diário pode fazer para fortalecer a região?

Penso que deve levar a sério a questão religiosa nesta época de pluralismo religioso, focando na tolerância para evitar conflitos religiosos.  O povo da região é religioso, está à flor da pele. A quantidade de nordestinos, mineiros, paranaenses, entre outros, que aqui vieram residir, trouxeram a alma sertaneja impregnada de espiritualidade e da certeza de que Deus não está morto, mas esta presente nesta cidade. Depois é preciso defender soluções conjuntas e organismos como o Consórcio Intermunicipal, porque a complexidade dos problemas da Região não poderá ser resolvida daqui para a frente, sem ser em conjunto. E não se esquecerem de publicar fatos positivos que mostram o valor da solidariedade em um ambiente urbano. Solidariedade que é o oposto da corrupção que tanto prejuízo nos traz.

Entrevista concedida ao jornal Diário do Grande Abc

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Fonte: Diocese de Santo André

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