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Desafios do ser Catequista na sociedade de hoje

Desafios do ser Catequista na sociedade de hoje

Palestra ministrada aos catequistas em 26 de setembro de 2015

 

Dom Pedro Carlos Cipollini

Bispo de Santo André

 

Introdução

O tema proposto é muito útil para quem está lidando no dia a dia com a catequese. Esta é uma missão maravilhosa e exigente, mas é gratificante. Ser catequista é uma vocação que exige atenção e formação contínuas para perceber a realidade. Exige também uma forte espiritualidade para ser capaz de iluminar e mostrar os caminhos da fé. Portanto, um momento como este é muito valioso, porque ajuda a crescer na fé e na compreensão da missão de ser catequista.

Vamos aqui dar uma olhada no mundo atual e sua crise de valores. Situar-nos como Igreja no projeto salvífico de Deus e por fim, falar do ser catequista.

  1. Mundo atual e desafios à Igreja

 

Nosso mundo é maravilhoso, o progresso tecnológico atingiu um grau admirável. A humanidade melhorou e avançou sob o ponto de vista técnico político e social. Porém o desenvolvimento humano nem sempre acompanhou esta evolução. Vejamos alguns desafios marcantes do mundo atual, ou seja, da sociedade em que vivemos e na qual está imersa a Igreja. Entre tantos podemos destacar:

  • Secularismo crescente em meio ao processo de globalização. Isto quer dizer que estamos diante de uma mudança radical na cosmovisão cultural do ocidente. Tudo se interliga (globalização), mas em torno do dinheiro (não em torno de Deus). Tudo está à disposição do ser humano. Nada é sagrado, a não ser a vontade do homem. Cientificismo positivista e materialista. Há uma mutação da cultura. Mais que época de mudança, uma mudança de época. Virada antropocêntrica.
  • Individualismo. A subjetividade foi o núcleo da modernidade e agora o individualismo é o núcleo da pós-modernidade. O indivíduo está atado a sua subjetividade, às suas experiências como critério de verdade, o sujeito interfere na constituição da verdade e assim tudo é relativo. Cada um tem uma visão própria para as coisas segundo seus próprios critérios. Religião confinada ao âmbito pessoal e particular dos indivíduos. Busca de satisfação, fama e poder. Consumismo.
  • Desumanização. Pobreza crescente, alargamento do fosso entre ricos e pobres a nível mundial. Basta pensar na abundância da Europa frente á miséria da África p. ex. O vazio de sentido é uma das conseqüências maiores da exclusão social desumanizadora.
  • “Desespiritualização”. A inspiração cristã foi substituída pelas ideologias que afirmam sua falência. O enfraquecimento da fé cristã faz renascer uma espiritualidade que vem proliferando ora como fundamentalismo (religiões cheias de certezas e soluções) ou uma espiritualidade “ligth” que resolve todos os problemas e satisfaz todas as aspirações como a “Nova Era”, ou seitas Evangélicas baseadas na “teologia da prosperidade”. Permanece a busca de sentido… Há um retorno do religioso de maneira anárquica, o que não quer dizer desejo de encontro com Deus. Pluralismo religioso.

    

Há uma ruptura entre cristianismo e a cultura ocidental, a cultura da modernidade e pós-modernidade deixou de ser cristã. Isto assusta porque diante desta situação, não se pode colocar remendos, mas se deve repensar o cristianismo na sua globalidade, no seu todo. “Sem termos realizado ainda a transposição do cristianismo tradicional para o horizonte da modernidade, somos solicitados já a repensar e traduzir a fé no contexto da pós-modernidade” (Carlos Palácio in Persp. Teol. 36(2004)183).

Aqui não estamos falando do lado positivo, ou negativo da modernidade e pós-modernidade, mas apontamos desafios. Enfim estamos mudando daquilo que é tradicional e seguro, para o que é moderno e duvidoso para o que é contemporâneo e desconhecido. As teorias sociais culturais sobre a crise de nosso tempo sabem detectar e analisar a crise, mas há divergência em relação às causas e soluções.

  1. Projeto Salvífico de Deus e Igreja

 

Jesus é o centro da mensagem de salvação. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Revelação do Pai e de seu projeto. Em Jesus se cumprem as promessas de Deus. Jesus o Filho de Deus é o salvador, “Emanuel”: Deus conosco. Jesus nos deixa a Igreja para que sua missão seja continuada e nós somos Igreja. Hoje há uma tentação de ser cristão sem Igreja. Há ainda uma sensação geral de que não se precisa da Igreja… Quem é catequista deve ter muito claro este ponto ou seja o que é a Igreja e como ser Igreja. É a partir daí que se situa o processo catequético como um serviço ou carisma na Igreja. Não há catequese sem Igreja.

No entanto, a Igreja não só esteve na intenção de Jesus, mas, também é componente do projeto salvífico de Deus. Foi prefigurada desde a criação, está latente no Antigo Testamento (Antiga Aliança). A Igreja foi preparada na história do povo de Israel, ela é herdeira das promessas feitas a Abraão (Gl 3,15–19).

O Vaticano II nos fala de uma Igreja que vem desde Adão, desde o justo Abel, como uma criança em gestação: “…desde a origem do mundo a Igreja foi prefigurada. Foi admiravelmente preparada na história do Povo de Israel e na Antiga Aliança. Foi fundada nos últimos tempos. Foi manifestada pela efusão do Espírito Santo” (LG n. 2). A Igreja fundada nos “últimos tempos”, isto é no tempo do Jesus histórico, do Cristo pascal.

A Lumen Gentium também fala de “atos fundantes” ou seja, uma fundação progressiva (LG n. 5) que se manifesta plenamente em Pentecostes, quando recebe sua configuração definitiva e a missão de evangelizar, de “missionar” todos os povos.

Fica claro, portanto, que a iniciativa de formar a Igreja não vêm dos seres humanos, mas de Deus. Ela é dom de Deus á humanidade, é a assembléia daqueles que foram chamados, convocados (cf. 1Cor 1, 26–29). A Igreja brota do mistério trinitário expresso em imagens usadas por S. Paulo: projeto do Pai (Povo de Deus), executado através da obra redentora do Filho (Corpo de Cristo) na força do Espírito Santo que a impulsiona (Templo do Espírito Santo). Em uma grande sintonia, o Pai projeta, o Filho executa e o Espírito Santo administra. Estes são os princípios estruturadores da comunidade eclesial

A Igreja é, pois a comunidade de Fé, comunidade única no mundo, que guarda a memória de Jesus Cristo, assistida pelo Espírito Santo. A fé em Jesus Cristo é eclesial e não individual. Eu creio na (dentro) Igreja: “Aprouve a Deus salvar a todos não individualmente, mas em comunidade” (cf. LG n. 9). Portanto não existe cristianismo sem Igreja. Ela é comunidade de seguimento de Jesus Cristo, que guarda sua memória. Comunidade única no mundo porque assistida pelo Espírito Santo, celebra a presença do Ressuscitado e o anuncia ao mundo. Cada comunidade eclesial existe por iniciativa de Deus, como dom (é Deus que envia seu Filho), pois a comunidade é fruto da fé e é próprio da dinâmica da fé reunir, congregar e expandir.

  1. A Igreja que Jesus quer que sejamos?

POVO DE DEUS. (LG cap. II) A partir da imagem de Povo de Deus que nos indica o projeto do Pai criador de incluir toda a criação na participação na comunhão de seu amor(é o projeto grandioso do Reino) a Igreja se manifesta na sua historicidade. A Igreja missionária deve ser militante, isto é desenvolver a prática da justiça e da caridade. A Igreja é assim una pela convocação do Pai, católica pela destinação universal:

    1. Igreja/Comunidade fraterna e igualitária de batizados, o que une os membros da Igreja é mais do que o que divide.
    2. Igreja/Comunidade organizada e estruturada, muitos dons e muitos carismas que devem estar unidos. O pastor é aquele que recebe o dom de manter unido o Povo de Deus como comunidade de fé e amor e deve exercer este dom na fidelidade, com temor e tremor.
    3. Igreja/Comunidade solidária com os pobres porque ela é o Novo Israel que á semelhança do Antigo Israel, nasceu do Êxodo (Ex. 3) no qual Deus libertou da escravidão do Egito.Deus escolhe os pobres (cf. lCor 1, 27–28).
    4. Igreja/Comunidade toda ela ministerial, unidade na diversidade.

CORPO DE CRISTO (LG n. 7) A partir da Imagem de Corpo de Cristo percebemos que o fundamento do Povo de Deus é Jesus Cristo, pedra fundamental. A Igreja missionária deve ser profética confrontando sempre a realidade com o Evangelho. Cristo é o corpo e seu espírito é a força que dá coesão a este corpo.

  1. Igreja/Comunidade da Escritura e Tradição, pois é apostólica e se reporta sempre a esta sua origem. Herdeira dos apóstolos, da fé apostólica.
  2. Igreja/Comunidade do Batismo que culmina na Eucaristia.
  3. Comunidade de Belém/Nazaré kenose (Encarnação) e da Páscoa (Ressurreição)
  4. Comunidade profética e martirial. A Igreja faz o memorial do crucificado que é o ressuscitado (evangelização integral).

TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO (LG n. 4) A partir da imagem de Templo do Espírito Santo, podemos completar o princípio cristológico com o princípio pneumático (Rm 8; Gl. 4; 1Cor 3, 16; 6,19). O Espírito Santo é o dinamismo da Igreja a tal ponto que poderíamos chamar os Atos dos Apóstolos de Atos do Espírito Santo. O Espírito é santificador, sem santidade de vida não existe missão. É também a santidade de vida de seus membros que dá á Igreja autoridade para evangelizar.Tudo o que os apóstolos realizam é “ movido pelo Espírito Santo”.

  1. Igreja/Comunidade dinâmica e escatológica
  2. Igreja/Comunidade Sacramento do Reino. Não se pode separar a pessoa de Jesus da causa de Jesus (Reinado do Pai)
  3. d) Igreja/Comunidade a serviço da justiça do Reino (Mt. 25, 31–46). O eixo da pregação de Jesus foi o Reino de Deus com sua característica de pregação profética, o profetismo como vai hoje?
  4. Igreja/Comunidade dos sinais dos tempos que supera o imobilismo para se abrir aos novos caminhos indicados pelo Espírito Santo (cf. GS 4,11; 44).
  1. Ser catequista

A fé cristã é desafiada a oferecer sua valiosa colaboração para a humanização de nossa sociedade e cultura. O ensinamento dado na catequese tem efeito formativo para a pessoa. A catequese deve apresentar a doutrina da Igreja em sua integridade, mostrando sua relação com a vida.

Esta tarefa não é fácil neste momento em que predominam as doutrinas da modernidade que vê a Igreja e as tradições religiosas em geral, como pré-modernas, autoritárias e caducas.

Em meio à realidade conflitiva de nossa época o catequista deve então ter uma idéia clara de quem é Jesus e a Igreja, a partir daí deve ter algumas metas e convicções que inspire sua ação. Aponto algumas:

  1. Deverá fazer valer seu conhecimento bíblico. A Palavra, a Sagrada Escritura deve ser a alma da catequese.
  2. Atenção à realidade, ao sofrimento do próximo para não mitificar o sofrimento e a injustiça, colocando o ser humano com sua responsabilidade diante do sofrimento do próximo.
  3. Despertar a partir da fé em Jesus a sensibilidade e reconhecimento diante do outro, do pobre e sofredor como presença de Deus
  4. Infundir o sentimento de que o ser humano não está só mas em Jesus Deus caminha conosco e nos acompanha
  5. Valorizar a liberdade de consciência: hoje em matéra religiosa não se pode forçar ninguém. O homem de hoje preza a liberdade de decidir. É preciso atenção a esta realidade.
  6. Ensinar os catequizandos a ver a fé como compatível com a vida democrática e o ser cidadão, promovendo o diálogo e a ética na sociedade.
  7. A cultura atual é racional, científica e ténica. A catequese deve mostrar que não há contradição entre a fé e a ciência. Há contradição entre fé e alguns cientistas…
  8. Assim como Jesus o catequista deve ter preocupação missionária constante.

 

           Conclusão

            Ser catequista em uma sociedade permeada por uma cultura neo-pagã é um desafio que exige o dom e a responsabilidade. Acolher o chamado, o dom de ser catequista. Este é um primeiro passo importante. Assumir a responsabilidade desafiadora, vestir a camisa.

Para concluir quero lembrar da necessidade de que a palavra do catequista esteja respaldada pelo testemunho de sua vida. Jesus certa vez disse: “Ainda que não creiais em mim creiam nas minhas obras” (Jo 10,38). Sem o apoio do testemunho de vida do catequista, a palavra, a catequese ministrada pelo catequista soará oca, será palavra abstrata.

Ressalto por fim o valor da oração na vida do catequista. A oração fortalece porque une a Deus, ilumina porque nos coloca sob a luz de Deus que desejamos transmitir.

 

Fonte: Diocese de Santo André

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