MEIO AMBIENTE
O termo "Ecologia" foi criado por Hernst Haedel (1834-1919)
Em 1869, em seu libro "Generelle Morphologie des Organismen", para designar "o estudo das relações de um organismo com seu ambiente inorgânico ou orgânico, em particular o estudo das relações do tipo positivo ou amistoso e do tipo negativo (inimigos) com as plantas e animais com que aparece pela primeira vez em Pontes de Miranda, 1924, "Introdução à Política Científica". O conceito original evoluiu até o presente no sentido de designar uma ciência, parte da Biologia, e uma área específica do conhecimento humano que tratam do estudo das relações dos organismos uns com os outros e com todos os demais fatores naturais e sociais que compreendem seu ambiente. "Em sentido literal, a Ecologia é a ciência ou o estudo dos organismos em sua casa, isto é, em seu meio... define-se como o estudo das relações dos organismos, ou grupos de organismos, com seu meio... Está em maior consonância com a conceituação moderna definir Ecologia como estudo da estrutura e da função da natureza, entendendo-se que o homem dela faz parte" (Odum, 1972). "Deriva-se do grego oikos, que significa lugar onde se vive ou hábitat... Ecologia é a ciência que estuda dinâmica dos ecossistemas... é a disciplina que estuda os processos, interações e a dinâmica de todos os seres vivos com cada um dos demais, incluindo os aspectos econômicos, sociais, culturais e psicológicos peculiares ao homem...é um estudo interdisciplinar e interativo que deve, por sua própria natureza, sintetizar informação e conhecimento da maioria, senão de todos os demais campos do saber... Ecologia não é meio ambiente. Ecologia não é o lugar onde se vive. Ecologia não é um descontentamento emocional com os aspectos industriais e tecnológicos da sociedade moderna" (Wickersham et alii, 1975). "É a ciência que estuda as condições de existência dos seres vivos e as interações, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e seu meio"(Dajoz, 1973). "Ciência das relações dos seres vivos com o seu meio... Termo usado frequente e erradamente para designar o meio ou o ambiente"(Dansereau, 1978). "...o ramo da ciência concernente à inter-relação dos organismos e seus ambientes, manifestada em especial por: ciclos e ritmos naturais; desenvolvimento e estrutura das comunidades; distribuição geográfica; interações dos diferentes tipos de organismos; alterações de população; o modelo ou a totalidade das relações entre os organismos e seu ambiente" (Webster`s, 1976). "Parte da Biologia que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ou ambiente em que vivem, bem como suas recíprocas influências. Ramo das ciências humanas que estuda a estrutura e o desenvolvimentto das comunidades humanas em suas relações com o meio ambiente e sua consequente adaptação a ele, assim como os novos aspectos que os processos tecnológicos ou os sistemas de organização social possam acarretar para as condições de vida do homem" (Ferreira, 1975). "Disciplina biológica que lida com o estudo das interrelações dinâmicas dos componentes bióticos e abióticos do meio ambiente"(USDT, 1980).
"Desta ladeira um sol surgiu para o mundo, brilhando como o sol terreno quando se levanta. Quem fala deste lugar não deveria chamá-lo Assis, mas Oriente." - Dante - Paraíso, Canto XI, 52, 1313-16
Desde que Cristo padeceu no Calvário, a Pobreza, tal como uma viúva enjeitada, voltou a vagar pelo mundo até que, doze séculos depois da morte do Salvador, surgiu Francisco Bernardone. Nascido em Assis, na Úmbria, em 1186, de uma família burguesa (seu pai era um próspero negociante de tecidos), para desgosto dos parentes, o jovem Francisco, com pouco mais de 20 anos, repudiando a sua prometida, a bela Fortuna, e "tomando o amargo como doce", deu seu braço e seu coração a uma outra. Esposou, em 1205, depois de ter promovido um escandalosos ato público, a Pobreza. Era uma triste e horrenda noiva, esquálida, famélica e meio endoidecida pelas necessidades. Retornava o nubente ao primitivo ideal cristão da paupertas voluntas, à pobreza voluntária, que tanto Cristo recomendava aos seus.
Afugentou-se então, em lua-de-fel com sua andrajosa noiva, para o campo, onde se pôs a restaurar a igrejinha de S.Maria degli Angeli, acompanhado de Bernardo, Silvestre, Egídio e Clara, morando em cavernas, (il carceri), entregando-se a um severo ascetismo, mantido a pão seco e goles d'água. Não demorou para que o povo do local o chamasse de il poverello. Era uma vida de privações. Brutal e friorenta, suportada apenas pela intensidade do fervor religioso e pela cadência das rezas feitas em grupo.
A notícia que ele abdicara de um lar abonado para formar uma nova ordem de monges mendicantes, voltada aos pobres, comoveu a todos. É, para nós do século XX, difícil estimar o impacto que Francisco Bernardone, o S. Francisco de Assis, causou no meio rural daquela época. Sabe-se avassalador. Bastou um ano, de 1208 a 1209 (data do começo da sua pregação a favor de uma retomada radical da vida cristã) para que o papa Inocêncio III o reconhecesse como um líder da renovação da fé. Atitude hábil do pontífice porque os franciscanos tornaram-se os catalisadores de um movimento carismático que atraiu os deserdados e flagelados da área rural italiana. Sensibilizaram igualmente um número significativos intelectuais, como Petrarca que, ainda que um século depois, viu naquele movimento uma similitude com o estoicismo clássico. Francisco apenas com seu exemplo, de imitator Christi, calçando sandálias e com o hábito de um servo, com uma corda na cintura, metido em terríveis jejuns, constrangia e embaraçava o fausto bizantino da Cúria romana.
Arrisco-me a especular que o Franciscanismo serviu ao povo cristão como uma consolação psicológica à perda de Jerusalém, que voltara a cair, uns anos antes, em 1187, em "mãos ímpias" quando Saladino reconquistou-a para o Islã. O Santo passou a ser visto, depois do fracasso da 3 ª Cruzada, como um Jesus renascido e mais próximo ao popolo minuto.
Cercado pelo misticismo que desencadeara, Francisco assumira a identidade do Filho de Deus, de um Cristo italiano, de um Cristo de Assis. A tal ponto que as chagas - os estigmas do Crucificado - nele também apareceram, como, segundo a lenda, se verificou na Quaresma de 1224, em seu retiro no Monte Alverno, "entre o Arno e o Tibre alçado" como localizou-o Dante.
Sua ternura, o paciencioso trato com os infelizes , a dedicação aos pássaros e seres silvestres, o culto à Natureza e à simplicidade, tornaram-no um Rousseau medieval, um ecologista do seu tempo. Fez da Úmbria uma nova Terra Santa, e da Basílica de Assis um santuário de peregrinação. Enquanto as sua primeira tumba, a da Igreja de San Giorgio, onde inumaram-no em 1226, noutro Santo Sepulcro. Sua presença, no transcorrer do século 13, foi tão impressionante que quando Dante resumiu sua vida no Paraíso (Cantos , XI e XII), o fez por um relato do sumo sapiente S. Tomás de Aquino. O S Francisco, como observou Auerbach, é o grande silencioso que inunda os Cantos do florentino com sua poderosa presença. Apesar de Dante criticar seus seguidores - "sua grei tornou-se cobiçosa de outro alimento"- o ferino poeta preservou-o. Giotto por sua vez, num painel célebre reproduziu o lendário sonho que o papa Inocêncio III tivera, onde S.Francisco aparece como o sustentáculo de um Igreja que estava caída.
O grande homem santo foi canonizado dois anos após a sua morte, em 16 de julho de 1228, por Gregório IX. Quase em seguida foram lançados os fundamentos da Basílica de Assis, obra que se arrastou por mais de 70 anos até que no pontificiado de Nicolau IV (um franciscano chamado Girolamo de Ascoli), entre 1288 e 1292, a maior parte dos trabalhos foram dados por concluídos. As paredes internas da Basílica serviram para que grandes artistas, como o romano Jacobo Torritti e o florentinos Cimabue e Giotto, utilizassem-nas para exercerem seus experimentos com a tridimensionalidade, fazendo dos afrescos que lá pintaram um exercício de ilusionismo e de cinética que, posteriormente será levado às últimas conseqüências pelos grandes mestres da Renascença.
Transcorridos, sete séculos passados da sua morte, em setembro de 1997 um miserável terremoto, enviado pelo pagão Vulcano, tentou inutilmente abalar o grande edifício em Assis, a Basílica onde repousam os restos do Santo. Sacudiu-o mas não o destruiu. E o que foi feito da Pobreza? Bem, esta, como se sabe, desde então enviuvou para sempre.