Aconteceu!

A Igreja é nosso “eu” plural! Amemos nossa Igreja

“Venho assumir com vocês, o desafio de anunciar e testemunhar o Evangelho na grande cidade”

O povo de Deus, residente na Diocese de Santo André conheceu seu quinto bispo diocesano, Dom Pedro Carlos Cipollini que veio da Diocese de Amparo para nos amar e nos servir. Acompanhe aqui a sua primeira homilia.

HOMILIA DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA E TOMADA DE POSSE CANÔNICA DE DOM PEDRO CARLOS CIPOLLINI

DIOCESE DE SANTO ANDRÉ/SP — 26 de julho de2015

Introdução: nosso horizonte é o Reino de Deus

Em nome de Jesus, disse meu sim e estou aqui para amar e servir vocês. Mais do que o bispo tomar posse da Diocese, é a Diocese de Santo André que hoje, está tomando posse do seu bispo. Venho da Diocese de Amparo onde estava há cinco anos. Venho para cumprir a vontade de Deus, ela é soberana. É a missão que determina nossa vida. É Deus que escolhe o roteiro, o modo e o local de servir à causa do Reino, devemos seguir os seus planos não os nossos. Assim, como Jesus veio de Nazaré para Cafarnaum e Jerusalém, eu venho para a cidade grande, onde me aguardam os desígnios do Senhor. Venho assumir com vocês, o desafio de anunciar e testemunhar o Evangelho na sociedade secularizada, na grande cidade, que é local privilegiado para a evangelização, no dizer do papa Francisco (cf. EG n. 73), a quem saúdo reverente em espírito de unidade e fidelidade.

Agradeço a presença de todos e cada um de vocês. Saúdo-vos com afeto especial. Agradeço a presença dos que vieram de perto e de longe. Em particular os que vieram da Diocese de Amparo. Abraço e acolho a todos com alegria. A Diocese é a Terra Santa do Bispo, peço licença a vocês para entrar na vossa, e agora minha Terra Santa: a grande e querida Diocese de Santo André. Saibam que venho de coração e braços abertos!

Saúdo o Emmº Sr. Cardeal Odilo Pedro Scherer, Metropolita da Província Eclesiástica de São Paulo. Saúdo todos os irmãos bispos aqui presentes. Vossas presenças tornam visível nossa colegialidade tão preciosa. Obrigado!Entre os irmãos bispos uma saudação toda especial a Dom Nelson Westrupp, que até agora esteve à frente da Diocese de Santo André da qual foi um competente timoneiro. Ao senhor Dom Nelson, a gratidão imorredoura da Igreja de Santo André, nosso respeito, admiração e estima.

Faço memória dos Bispos Diocesanos que por aqui passaram, Dom Marcos, que soube ler os sinais dos tempos e Dom Décio, um sorriso de Deus. Estão na Casa do Pai! O sr. Dom Cláudio Cardeal Hummes, voz profética em tempos difíceis. Espero ser capaz de dar continuidade ao trabalho deles. A Diocese de Santo André é uma Igreja bela e dinâmica, unidos, vamos prosseguir esta caminhada com a participação de todos.

Saúdo os queridos padres do Presbitério de Santo André, os diáconos, religiosos e religiosas com seus diversos carismas, saúdo os seminaristas. Quero ser para vocês o pai e pastor que vocês esperam: amigo certo nas horas incertas. Mas também espero de vocês irmãos queridos, que tenham um amor efetivo e afetivo por nossa Diocese. Que ninguém se sinta hospede ou parasita, mas membro atuante, desta grande família de Deus que é a Igreja Particular de Santo André, à frente da qual o Senhor hoje me coloca como Pastor, apesar de minha pequenez. Amemos esta Igreja, vamos nos envolver e comprometer com ela, já que nela vivemos a doação de nossas vidas, em favor do Reino de Deus. A todos os diocesanos peço que queiram bem os padres e rezem por eles e pelas vocações sacerdotais.

Quero saudar de coração os leigos e leigas, unidos todos pelo santo Batismo que nos faz ter na Igreja a mesma dignidade. Sem um laicato adulto, atuante, discípulo e missionário,a Igreja dificilmente cumprirá sua missão (cf.Vat. II — AA. 22). Sabemos que a identidade profunda da Igreja e do cristão é o seguimento e testemunho de Jesus. Convoco a todos e todas, para serem Igreja Comunidade de comunidades, em permanente estado de missão. O povo de Deus é povo de discípulos porque recebe a fé e povo de missionários porque transmite a fé.

Que sejamos uma Igreja “acolhedora e em saída missionária”. Estejamos “sempre prontos para responder a quem pergunta, sobre a razão de nossa esperança” (1Pr 4,13).  A presença da Igreja se faz através de vocês, comprometidos com o Evangelho da vida.

Quero agradecer a presença e saudar de modo especial as autoridades, civis e militares, dos poderes legislativo, executivo e judiciário; e o faço na pessoa do Sr. Prefeito da cidade de Santo André Sr. Carlos Grana que é a sede de nossa Diocese, e às demais autoridades dos municípios que compõem a Diocese: Diadema, São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

A partir da Doutrina Social da Igreja, asseguro minha disposição de estar sempre pronto a dialogar e colaborar, com tudo aquilo que favoreça o bem comum, e a dignidade da pessoa humana. Peço que não neguem a liberdade religiosa garantida pela Constituição Federal e, a partir dela, o direito da Igreja Católica de participar na Sociedade, para que seja mais justa. Sociedade Laica: sim! Laicismo rançoso: não! Que esta coroa de espinhos de favelas e miséria que ainda permeiam nosso Grande ABCD tenha menos espinhos, menos miséria, injustiça e sofrimento. Vamos fazer juntos a opção pela vida, deixando de lado a luta pelo poder e a tentação da corrupção antipatriótica.

Palavra de Deus e Igreja

A Palavra de Deus aqui proclamada do Evangelho de S. João (cap. 6,1–15) nos indica todo um caminho para sermos uma Igreja viva, empenhada numa verdadeira “Conversão pastoral”. É um programa.

A multidão segue Jesus porque tem fome da Palavra de Deus. Quer orientação em meio a dúvidas e sofrimentos. O Evangelista diz que Jesus está na montanha (alusão às bem-aventuranças, coração do Evangelho), e alimenta a multidão com a Palavra de Deus. Palavra que é luz, vida, força e segurança. Aqui nos é proposto o primado da Palavra, que nos convoca à oração e ao serviço. Somos chamados a começar e recomeçar da Palavra de Deus, apostando nela toda nossa vida.

A conversão pastoral brota da escuta da Palavra confrontada com a realidade. A Palavra faz germinar o Reino de Deus. Toda renovação da Igreja parte da conversão ao Evangelho. Nossa fé nasce da escuta da Palavra que depois se torna anúncio. E o Bispo de Santo André, neste dia de sua posse se apresenta como Servidor, sim, mas em primeiro lugar, servidor da Palavra de Deus. Levemos o Evangelho no coração, façamos de nossa Igreja a Casa da Palavra, da Iniciação Cristã e da animação bíblica da vida Pastoral.

A partir da Palavra de Deus podemos ouvir e dialogar com todos, mostrando que a última palavra não é da violência e do pecado, mas da razão e da graça. Estou e estarei sempre, como Bispo de Santo André, aberto ao diálogo franco e respeitoso com todos. E desejaria que os cristãos das várias denominações existentes na área de nossa Diocese, fossem unidos e cordiais uns com os outros, porque a Palavra de Deus assim nos pede. A segunda leitura que ouvimos tirada da carta de São Paulo aos Efésios, nos estimula a viver um sadio ecumenismo. O chamado à comunhão é radical: “Há um só corpo e um só Espírito, como também uma só esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor e uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos…” (Ef. 4,4–5).

O maior diálogo que a Palavra de Deus nos pede é a evangelização da cidade na qual estamos. “Deus vive na cidade” (DAp 514) e, evangelizar é tornar palpável esta presença. Se compararmos nossa Igreja a uma árvore, a Palavra de Deus deve ser a raiz.

Eucaristia (Sacramentos) e Igreja

Mas o Evangelho aqui proclamado nos fala também que Jesus multiplicou os pães.  A exemplo da primeira Leitura (cf. 2Rs 4,42–44), na trilha profética de Elias e Eliseu, Jesus tem misericórdia e compaixão do povo pobre e faminto. Jesus quer comprar pão, mas não tinha dinheiro nem havia lugar que vendesse: era um deserto. O apóstolo André irmão de Simão Pedro, discretamente apresenta a Jesus um jovem que tem cinco pães de cevada (o pão mais barato que existia) e dois peixes.

André é esta admirável figura que possibilita a Jesus fazer o milagre. Que nossa Igreja de Santo André, simbolizada em seu brasão por estes dois peixes e cinco pães, Igreja que traz o nome deste grande apóstolo (protocleto=o primeiro chamado), seja também a facilitadora, para que Jesus se faça presente entre nós, saciando a fome de todos; Fome de Deus e de eternidade em primeiro lugar. Fome de sentido da vida e fome material do pão também. Deus quer nossa colaboração na implantação de seu Reino: devemos ajudar a levar os pães e os peixes como fez o apóstolo André. Jesus manda organizar o povo, abençoa e o pão é distribuído. Jesus pede aos apóstolos que faça o povo sentar-se (é a atitude dos discípulos), depois eles distribuem o pão abençoado (é a vida comunitária).

Todos comem e sobra. Quando trazemos só para nós, sempre falta, quando se coloca em comum, há partilha: sempre sobra. A Eucaristia é fonte de vida solidária, ela nos garante que vencemos o mal fazendo o bem, promovendo a “cultura da inclusão”. Nestes acontecimentos, está o sinal de que a Igreja é alimentada pela Eucaristia e os sacramentos, organizada em comunidades. “Aprouve a Deus salvar-nos em comunhão” (Vat. II — LG 9), não sozinhos, individualmente.

Jesus nos indica o primado da Comunhão e Unidade geradoras da Comunidade, que celebra a fé através dos sacramentos. Não existe Igreja sem comunidade. Não existe cristão sem Igreja. A Igreja é nosso “eu” plural! Amemos nossa Igreja. Comunhão e comunidade são próprios dos cristãos, fazem a diferença, em meio ao individualismo reinante. Cristo Reino e Igreja são inseparáveis (cf. João Paulo II in RM 18).

Sabemos que a força para evangelizar nos vem da Eucaristia e da vida comunitária. A comunhão é fundamento da missão e da pastoral de conjunto. E não nos esqueçamos que a liturgia bem celebrada é o primeiro ato evangelizador. Os sacramentos que celebram a fé formam o tronco desta árvore frondosa que é a Igreja.

Missão (Testemunho — Pastoral) e Igreja

Por fim meus irmãos e irmãs, a Palavra e os sacramentos nos levam ao testemunho, à missão. O Evangelho que ouvimos, mostrou que após o milagre as pessoas proclamavam que Jesus é o “verdadeiro profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6,14). Esta é a função da Igreja: testemunhar o Evangelho na cidade. Jesus não permitiu que o proclamassem rei, para nos ensinar que a missão da Igreja, não se confunde com ideologias e partidos, nem com os reinos deste mundo, montados no materialismo, na Propaganda e na força do poder opressor. O Reino de Jesus é Reino do AMOR SERVIÇO, pois servir o próximo nos liberta e o amor nos salva. Por isso devemos amar servindo.

A Vocação da Igreja é profetizar sobre os direitos de Deus e a dignidade da pessoa humana como fez Jesus. Proclamar que o futuro de nossa sociedade passa pela solidariedade. A Igreja de Santo André deve se empenhar em construir uma sociedade solidária, porque no fundo o cristianismo é solidariedade. Nossa Igreja quer anunciar que não existe paz sem  a justiça do Reino que inclui o perdão.

Neste Jubileu proposto pelo Papa Francisco, Ano Santo da Misericórdia, a iniciar-se em dezembro, vamos propor a reconciliação, curar os corações feridos e magoados por tanta tristeza, desilusão e decepção que se abateu sobre nós aqui no Grande ABC. Depois de uma primavera de esperança vivemos um inverno de desilusões. Vamos recomeçar com fé em Cristo, recordando-nos dos trabalhadores que aqui fizeram história, lutando pelos seus direitos!

Dirijo-me, sobretudo aos jovens que diante do desemprego preocupante, perdem a dignidade ao não poderem ganhar o pão com seu trabalho. Não tenham medo, confiem em Deus, confiem em vocês mesmos. Queremos acompanhar a família, ela é a primeira e mais original formação social, invenção de Deus. Sem a família: insegurança e violência tendem a crescer!

Seria impossível evangelizar de verdade se a Igreja não olhasse com amor para os pobres, sofredores, doentes, encarcerados, os de coração abatido. Neste momento reafirmamos a evangélica opção pelos pobres contra a pobreza. Deus ama os pobres e por isso, ama os que amam os pobres. Ele julga severamente os que causam a miséria. Com Jesus e por causa de Jesus queremos estar com os pobres. Nossas Pastorais Sociais sejam abençoadas porque são a forma organizada de exercer as obras de misericórdia prescritas pela Igreja a partir do Evangelho (cf. Mt 25).

Que Deus ajude-nospela fé, a debelar as “novas pestes” das cidades, especialmente a solidão. Toda ação social e evangelizadora da Igreja é como a copa da árvore, onde estão as flores e frutos.

Conclusão: esperança e coragem!

Termino minha homilia, um pouco grande, me desculpem, mas como a diocese é grande ao menos esta primeira teve de ser grande! Convido a todos e todas para continuarmos construindo uma Igreja Pascal. Comprometida com a vida do povo. Igreja da esperança, que nunca desanima e sempre segue adiante. Acreditemos no amor de Deus por nós. Ele é bom e não desiste de nós! Que nossa fé seja adulta para reconhecer as dificuldades e superá-las (cf. Vat. II — GS 21).

Que sejamos corajosos. A palavra coragem deriva de coração. A coragem começa no coração cheio de amor e gratidão a Deus. Coração que não pode ficar calado nem parado. A coragem tira o medo e nos faz missionários do Reino. Faço minhas as palavras escritas por S. Gregório Magno referente ao bispo: “Com coragem aceita em si as lutas e se consagre com misericórdia a proteger o próximo. Contra os males sofridos, acrescenta o bem realizado” (in Moralia, sobre Jó, Lib. 3,39–4; PL 75, 619 – 620).

Que nosso padroeiro Santo André nos inspire na missão. E por fim, confio a Maria Santíssima, meu episcopado na Diocese de Santo André, invocando sua proteção, a partir das 35 paróquias a ela dedicadas em nossa diocese. Consagro-me a ela como piedoso devoto, que já provou a força de sua intercessão. Com amor filial a invoco: Nossa Senhora do Carmo, rogai por mim, rogai por nós. AMÉM.

+ Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo Diocesano de Santo André-SP

Fonte: Diocese de Santo André

Deixe um comentÁrio

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios *

*

Scroll To Top
WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com